Aprender com o filósofo Agostinho da Silva o que é ser freelancer

Os melhores clientes de um freelancer são aqueles com quem se aprende alguma (ou muita!) coisa. Esse é para mim um dos privilégios que tenho por trabalhar como profissional liberal, mesmo sendo certo que nem todos os clientes têm alguma coisa para ensinar ou que o projecto permita esse tipo de relação.

Estou a trabalhar com o Montado do Freixo do Meio há um ano, num projecto longo, trabalhoso, complexo, mas que para mim se tem revelado de uma enorme riqueza pessoal, não só pela relação criada com o cliente, mas especialmente, pelo tanto que tenho aprendido sobre agricultura biológica, biodiversidade, tradição, ruralidade, agroecologia, filosofia, propósito, ética, sociocracia, etc. E neste momento do projecto onde estamos a trabalhar a parte que trata da Cooperativa, um dos textos que me foi enviado para trabalhar e incluir é o do filósofo português Agostinho da Silva. Confesso que o nome não me era estranho, pese embora, nunca tenha lido nada dele. Mas vale a pena conhecer este filósofo, poeta, ensaísta, professor, filólogo, pedagogo e tradutor português.

Este é o excerto que me foi enviado e que achei que se aplica tão bem à vida de uma cooperativa como de um freelancer.

A pesar de todas as dificuldades, a pesar de todos os obstáculos que um sistema económico, que de resto não poderia ter sido outro, lhes levantou, os homens mostraram sempre o seu desejo de cooperaçãoo gosto da vida em comum em que possam auxiliar-se, puseram sempre como ideal um estado de sociedade, uma organização em que não teriam de separar o seu interesse individual do interesse da comunidade, em que os dois aspetos da sua vida na terra formassem um todo e lhes dessem a harmonia, a paz, a tranquilidade interior que os homens buscam acima de tudo.

AGOSTINHO DA SILVA, «AS COOPERATIVAS, INICIAÇÃO», 1942

  1. A pesar de todas as dificuldades, a pesar de todos os obstáculos que um sistema económico (…) lhes levantou
    Não há nenhum sistema económico perfeito, nem à direita ao centro ou à esquerda. Um freelancer (ou um qualquer empresário!) tem de se adaptar a todas as suas contrariedades, obstáculos, dificuldades que lhe surjam, sejam elas de regulação, concorrência, tributária e, como no último ano, de saúde pública. O freelancer sabe que não tem a quem se socorrer quando as coisas correm mal. Trabalhou pouco esse mês ou os clientes não cumpriram com os pagamentos, não há ninguém a quem recorrer – quer dizer, há, os bancos, quando tem crédito ou é capaz de suportar as suas condições. Certa vez em conversa com um professor universitário de empreendedorismo, explicava-me ele. que nos negócios não há mau tempo; o que há é má escolha de roupa. O que ele queria dizer é que as condições económicas, tributárias, de concorrência são a meteorologia, a qual não temos controlo. Porém, em tudo o resto, isto é, a roupa com que enfrentamos os fenómenos meteorológicos, podemos fazer as nossas escolhas, previsões e antecipações. E o que sucede a muitos empresários e freelancers é que não têm a roupa adequada, sejam boas práticas de gestão, análise de risco, competitividade, valor acrescentado nos seus produtos e serviços, etc. Um freelancer tem de saber preparar-se para os fenómenos meteorológicos adversos, tendo finanças capazes de resistir aos tempos de seca, encontrando projectos que sejam fecundos em valor e reputação, evitando riscos desnecessários, etc. Mesmo com toda a incerteza que esta forma de exercer a minha profissão traz, eu não troco por nada a liberdade de escolha que me proporciona. E o que tenho aprendido com os anos é a saber exercer essa liberdade: liberdade de recusar um projecto ou cliente que não adequa a mim; liberdade de escolher o quanto quero trabalhar; ou liberdade de gerir o trabalho em função dos meus interesses pessoais ou vida social.
     
  2. Os homens mostraram sempre o seu desejo de cooperação
    Os projectos de freelancing só são bons quando existe – e se pratica – o desejo de uma genuína cooperação entre as partes. É aqui que muitas vezes freelancers e clientes erram. E erram ambos de forma distinta. O freelancer erra porque não tem coragem de confrontar e defender as suas ideias e propostas junto do cliente (e depois passa o tempo a choramigar porque é que o cliente não o leva a sério); os clientes porque acham que cooperar é o freelancer fazer tudo o que dizem! Freelancers e clientes não têm de estar de acordo em tudo (alguém está?), mas têm de ter espírito aberto para avaliarem o que é o melhor para o projecto. Quando tal acontece, os resultados são mágicos! 
     
  3. O gosto da vida em comum em que possam auxiliar-se
    Quando cliente e freelancer cooperam em verdade o resultado é uma relação que vai muitas vezes mais além do que trabalho. Os horizontes de ambas as partes expandem-se; e o que era um trabalho de curta duração, alonga-se e prolonga-se no tempo. A relação entre cliente e freelancer tem de garantir ganhos mútuos. Não é só exigir ao freelancer que dê o seu melhor e depois fica esquecido na folha de pagamento… como não é só exigir originalidade e soluções engenhosas e depois não dar o devido crédito ou não o recomendar a outros contactos.
     
  4. Separar o seu interesse individual do interesse da comunidade
    Eis o grande pecado de muitos projectos: os intervenientes separam os seus interesses individuais do projecto. Os meus interesses e princípios têm de estar alinhados com os do cliente e do próprio projecto e, no meu caso, não há dinheiro nenhum do mundo que me faça mudar de opinião. O insucesso de muitos projectos é esta falta de alinhamento, é sentir que nos estamos a trair ou a vender por um prato de lentilhas. Ao aceitar um projecto de um novo cliente a primeira coisa que tem de descobrir (ou tentar o melhor que possível) é o quanto os interesses estão alinhados. Esse trabalho nem sempre é simples. Por vezes tudo indica que sim, mas rapidamente se começa a perceber que não. Num primeiro trabalho é tolerável que tal aconteça, mas depois não. Há que ter a coragem de pôr fim a essa relação / trabalho.
     
  5. Lhes dessem a harmonia, a paz, a tranquilidade
    O propósito do trabalho não é vivermos amarrados, amargurados, irritados, deprimidos, esgotados, etc. Não pode ser essa a função do trabalho. Eu sei, que nem todos temos os nossos empregos de sonho (e por acaso, o que é um emprego de sonho?) e muitas vezes as condições de vida não permitem uma maior liberdade de escolha. Compreendo tudo isso pois já trilhei esse caminho mais do uma vez e sei o quão penoso é. Não querendo soar a guru de auto-ajuda ao estilo do Gustavo Santos, deixe-me dizer-lhe que existem alternativas, outras saídas e caminhos que podem levar ao lugar de harmonia, paz e tranquilidade. Um trabalho, um projecto, um cliente que não tragam harmonia, paz e tranquilidade não é merecedor do nosso esforço. E isso não significa que esse cliente não seja desafiante, rigoroso, exigente e às vezes até austero (tipo mentalidade alemã, compreende?). Eu trabalhei com pessoas assim e em nenhum momento me senti maltratado. Compete a nós – por respeito próprio – traçar as linhas vermelhas, garantir que não são ultrapassadas e ter sempre um plano de saída.

Este artigo foi um pouco mais longo que o habitual e espero que lhe tenha servido para reflectir um pouco. Por mim, vou continuar a descobrir mais sobre este homem que afirmou que «O homem não nasce para trabalhar, nasce para criar, para ser o tal poeta à solta».