Vamos entrar num novo confinamento…

Parece que estamos presos numa montanha russa que já perdeu toda a graça (se é que chegou a ter alguma), num pesadelo interminável ou num círculo vicioso do qual não nos conseguimos libertar. Ainda há 10 meses fomos forçados a um confinamento geral para dar tempo e condições para o país se preparar para lidar com a pandemia da Covid-19, com a promessa que seria uma situação extraordinária e irrepetível, e agora, lá vamos nós voltar a ficar presos em casa.

Se é verdade que para muitas pessoas o confinamento de Março lhes permitiu darem asas à criatividade e tiveram até tempo e vontade para realizarem actividades que noutras condições não o fariam, é igualmente certo, que para muitos, este isolamento representou uma perda. A solidão pode ser o melhor ou o pior para os criativos.

O pensamento criativo pode ser cultivado por hábitos como o exercício físico, por noites bem dormidas, pela leitura, pela observação do que se passa ao redor ou pela simples distracção sem agenda. Mas há um outro catalisador importante para a pensamento criativo que são as interacções não planeadas com amigos, conhecidos, colegas de trabalho e até com pessoas estranhas, aliado a ambientes que nos estimulam e inspiram.

No meu caso, um novo confinamento não me afecta sobremaneira: afinal, tenho projectos agendados (graças a Deus!), gosto de trabalhar em casa, a solidão não me atinge de forma violenta e prefiro reuniões por videoconferência ou por telefone, pois na maior parte dos casos, é mais eficaz e rápido.

Mas por outro lado, sinto muita falta da liberdade de trabalhar noutros locais fora de casa: nas salas de bibliotecas públicas, nas áreas de restauração dos centros comercias, na esplanada de um Starbucks ou em qualquer outro local público!

Tenho saudades de estar na biblioteca do Feijó sentado junto à enorme fachada de vidro a escrever ou a planear o meu trabalho: escrevi nesse local muitas das aulas que hoje compõe o programa de treino avançando da Academia Freelancer. Sinto falta das manhãs e tardes passadas no Starbucks: cheguei a ir carregado com o dossier da contabilidade e aí tratar da declaração trimestral do IVA. Gosto de relembrar o tempo que passei na área de restauração do El Corte Inglês a escrever vários dos meus primeiros textos: em 50 minutos (o tempo de estacionamento gratuito), sozinho com o meu computador, dedicava-me com toda a concentração e energia a escrever algo que me fizesse sentir orgulhoso e com a certeza que teria significado para os leitores. Como era tão bom ir almoçar à tasca O Trevo no Largo do Camões, no período em que trabalhei na Rádio Renascença, onde, apertado de ombro a ombro, comia uma bifana ou um prego ao balcão, e voltava para o trabalho com outra motivação e disposição.

Porque trabalhar em casa, sozinho, não faz de mim um eremita ou um monge enclausurado. Gostar de trabalhar em silencio não significa não me sentir inspirado pelo murmurinho das pessoas que me rodeiam.

Com as limitações de circulação, a imposição do uso da máscara e do distanciamento social (note, não estou a manifestar discordância), mas sobretudo a insegurança, frequentar um lugar destes deixa de ser uma experiência prazerosa, e por consequência, inspiradora de qualquer criatividade.

Não são só os lugares que sinto falta, mas também de estar com pessoas inspiradoras. Sinto falta daquelas longas horas de conversa em que vamos pulando de tema em tema, sem uma agenda concreta, mas só pelo prazer de debater e de estar com aquela pessoa. Claro que é possível telefonar ou falar por videoconferência, mas não é bem o mesmo, certo? Sim, podemos trocar centenas de mensagens, vídeos e áudios, mas nada substitui a presença física, analógica!

Todo o criativo, mesmo que até seja meio solitário como eu, precisa de pessoas e precisa de ambientes que o inspirem. E não é só inspiração para grandes ideias ou problemas complexos, mas especialmente, para tarefas de que não sentimos nenhum prazer em realizar. Asseguro-lhe que tratar de um qualquer assunto burocrático numa boa esplanada torna toda a experiência menos penosa.

É por esta razão que me sinto tão apreensivo em relação às próximas semanas (ou meses!). Sinto-me como as crianças no banco de trás do carro numa longa viagem a perguntarem repetidamente: «Ainda falta muito? Quando chegamos? Já estamos perto?» Talvez, o que deva fazer é seguir o conselho que todos os pais dão nesse momento: «Senta-te confortavelmente, olha pela janela e disfruta da viagem!»