Um texto com algum azedume

O Sérgio Godinho tem uma canção com esta frase: «Não me digas que nunca sentiste… uma raiva a nascer-te nos dentes.»

De facto, não é fácil ganhar dinheiro como trabalhador independente, tendo em conta todas as obrigações fiscais. Quando mais se vai subindo no nível dos clientes — e proporcionalmente nos honorários — mais nos apercebemos de quanto do produto do nosso trabalho vai para impostos.

Sim, eu sei, como trabalhador por conta de outrem também é assim.

Por isso é que me questiono como há tantos freelancers a cobrar valores tão baixos pelos seus serviços, tendo em conta a carga fiscal inerente. Na verdade, até sei a resposta: é que muito do trabalho feito não é facturado. É a única forma, pois se fosse tudo declarado seria impossível anunciarem serviços que deveriam custar milhares de euros por apenas umas centenas (e às vezes dezenas).

É verdade que defendo que a competição de um freelancer não deve ser pelo preço, mas pela qualidade do seu trabalho. Mas, como cidadão (é comum a comunicação social usar a expressão «contribuinte», mas eu detesto esse nome pois é tão redutor…), custa-me, e muito, ver tanto dinheiro fruto do meu trabalho ser encaminhado para impostos.

Este texto não é para atingir ninguém, pois eu próprio tenho telhados de vidro e muitas vezes dou por mim a alimentar a economia paralela.

Uma pequena história: No Outono de 2019, o condomínio do meu prédio mudou de tipo de gás e passou de propano para gás natural.

No momento da conversão do fogão, disse-me o técnico (ou inspector, sei lá, eram tantas pessoas a entrar e a sair) que o aparelho tinha uma minúscula fuga e, por isso, tinha de ser reparado, sob pena de não se emitir o certificado de inspecção do gás. Vi logo a minha vida a andar para trás, pois já estava a antecipar o cenário de não ter gás em casa e de ainda ter de gastar dinheiro na compra de um novo equipamento. Mas logo ali foi anunciada a solução… o senhor X, que estava a tratar da instalação da conduta do prédio, fazia aquele tipo de reparações e estava disponível para consertar o aparelho. O preço: 50€. Lá pensei: «É menos que comprar um novo aparelho, por isso, vou avançar».

No momento do pagamento lá recebeu os 50€, mas não entregou factura nenhuma. Nem perguntou se eu a desejava e, confesso, também não a pedi (na verdade não pedi porque tive medo de que o homem dissesse que assim não arranjava a placa e em consequência disso, ficasse sem gás). Ou seja, se imaginar que em cada instalação de gás num prédio há pelo menos um condómino que necessita dos seus serviços, aquele senhor faz 1100 euros por mês limpinhos de impostos! Quase dois salários mínimos que muita gente sua para ganhar! Mas se aquele trabalhador tivesse emitido a respectiva factura pagaria, entre retenção na fonte para IRS e Segurança Social, o valor de 439,79€. Ou seja, quase 40% do seu trabalho iria para impostos e contribuições (sim, o meu cálculo foi simplista, pois em sede de IRS há muitas variáveis que condicionam o valor final do imposto).

Poderá defender que se todas as pessoas pagassem o que devem então a carga fiscal poderia ser menor. Certo! Não ponho isso em causa e estou de acordo. Mas às vezes precisamos de ver os números para que a realidade nos entre pela vista dentro. Só assim percebemos como é mesmo difícil trabalhar, ganhar dinheiro, cumprir as nossas obrigações e sentir que, no final, valeu a pena.