Temos de gostar do nosso trabalho?

Uma das frases mais citadas que vemos por estas redes sociais fora é aquela que atribuem a Confúcio: «Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida.» Será mesmo assim?

Então quando dizemos a quem nos rodeia que trabalhamos por conta-própria ficam logo a pensar que acordamos todos os dias exultantes e cheios de energia para trabalhar, até mesmo à 2ª-feira…

Afinal, se trabalhamos por conta-própria é porque podemos escolher a nossa profissão e por isso devemos amar o que fazemos, certo? Por isso, visto de fora, o que fazemos não é propriamente trabalho.

As pessoas relacionam-se com o trabalho de múltiplas formas: como um meio de subsistência, uma necessidade, uma extensão de si mesmas, uma obrigação, um dever ético, uma paixão, uma forma de manter o corpo e a mente ocupados, um meio de auto-expressão, etc. São tudo razões válidas e em muitos casos vivem interligadas entre si.

Para ser completamente honesto, para mim trabalho é… isso mesmo, trabalho! A minha mulher vai discordar comigo, porque com frequência diz que se eu não trabalhar todos os dias, nem que seja por um par de horas, o meu humor fica insuportável. Mas na verdade, não é por não trabalhar, mas é sim, por sentir que estou a perder a oportunidade de materializar uma ideia. É esta ansiedade de pensar que poderia estar a fazer algo naquele momento e que se adiar já não serei capaz de o fazer.

É verdade que boa parte do meu trabalho é agradável e dá-me uma boa dose de sentido de realização; mas, é igualmente verdade, que em muitas situações é absolutamente stressante, deixando-me submerso em sentimentos de ansiedade, frustração e até obsessão enquanto não sou capaz de realizar uma tarefa, concretizar uma ideia ou sentir-me satisfeito com o resultado final.

E é também bastante aborrecido: responder a e-mails, pesquisar, redesenhar layouts porque ainda não estão como desejados, reescrever múltiplas vezes código porque ainda não faz exactamente o que é suposto ou tratar de burocracias; isto, só para dar alguns exemplos. Acredite, que se seguisse o conselho do Confúcio, então, há muito que já tinha desistido de trabalhar. Eu faço estas coisas porque fazem parte da profissão e até procuro ter algum prazer nelas, pois a quantidade de endorfinas largadas no cérebro depois de preencher com sucesso a declaração de IRS faz-me sentir muito bem…

O que quero dizer é que não é necessária paixão para a realização de um trabalho ou tarefa. Na minha perspectiva, o que é necessário é compromisso, empenho e sentido de propósito (entender que estou a fazer algo útil). A paixão, muitas vezes só chega no final, quando olhamos para o resultado.

Para finalizar: às vezes sinto-me algo culpado por não estar a trabalhar (especialmente quando vejo a minha mulher sair de casa de manhã e eu ainda fico a sentado no sofá), mas também me sinto culpado quando estou a trabalhar e penso que poderia estar com os meus filhos fora de casa a passear ou a brincar com eles. E é aqui que me questiono se existe mesmo o tal work-life balance ou se como diz a canção do Sérgio Godinho, isto anda tudo ligado.