Tal como eu, já terá passado por situações onde não terá sido capaz de dizer um alto e sonoro NÃO!

Quantas vezes quis dizer não e não foi capaz? Quantas, mas quantas vezes correu atrás do prejuízo? Quantas e quantas vezes sucumbiu perante a insensatez? Quantas, mas quantas e quantas vezes prometeu a si que nunca, mas mesmo nunca mais tentaria satisfazer alguém (um chefe, um director, um cliente, ou até mesmo um amigo) além do seu limite?

Bom, este primeiro parágrafo pode parecer um tanto ou quanto dramático, mas depois de assistir ao documentário em exibição na Netflix «FYRE: O Grande Evento que Nunca Aconteceu» compreenderá o seu alcance.

O Fyre Festival foi a maior festa luxuosa e exclusiva que nunca aconteceu! Concebido originalmente como um extravagante golpe de marketing para promover uma nova app destinada a agenciar bandas e artistas musicais, o festival que deveria ter ocorrido em 2017 numa paradisíaca ilha das Bahamas acabou por ser um fiasco estrondoso (para dizer pouco!).

O modo como Billy McFarland, o promotor e visionário do evento, convenceu a sua equipa de que era possível organizar um ultra-luxuoso festival em pouco mais de três meses é um mistério. Ou talvez não quando escutamos as declarações de dois experientes responsáveis pela organização:

A atmosfera que foi cultivada ali era uma em que ninguém, em circunstância alguma, conseguia contrariá-los e dizer: “Não”.
Se não tivéssemos conseguido arranjar coisas loucas, como o Andy encontrar uma empresa de catering quase sem tempo, não teria havido festival. É possível que, ao resolver problemas, nós estivéssemos apenas a possibilitar que eles continuassem a criar aquele monstro.

É aqui que faço a ligação com o primeiro parágrafo deste artigo: é que sei que, tal como eu, já terá passado por situações onde não terá sido capaz de dizer um alto e sonoro NÃO!

não parece destruidor de relações sejam elas de negócios, hierárquicas ou de amizade. Há na generalidade das pessoas uma crença de que só são aceitáveis se disserem sim a tudo o que lhes pedem. (E atenção que isto não é conversa de palrador-guru-vendedor-de-unicórnios-cor-de-rosa que encontramos em milhares e milhares de vídeos no YouTube)

Mas veja a conclusão dos dois colaboradores do Fyre Festival: se tivessem dito não e não tivessem continuado em busca de soluções absurdas para problemas ilógicos, a catástrofe teria sido evitada.

Eu tenho praticado cada vez mais a arte de dizer não. E faço-o de duas formas:

  1. Questionando de tal forma que é a outra pessoa que vai de encontro à resposta, entendendo por ela mesma, que provavelmente o pedido feito não faz sentido;
  2. Ou dizendo que não foi para satisfazer aquele tipo de pedidos ou executar aquele tipo de ordem que fui contratado. Explico ao cliente que não sou um yes sir, que essa não é o tipo de relação que defendo.

Relações fortes são aquelas onde as duas partes são capazes de verdadeiramente construir uma colaboração genuína. Isto é, o cliente contrata-me porque confia em mim a capacidade de lhe entregar respostas criativas a problemas complexos; ele crê na minha inteligência e experiência profissional; já eu tenho a obrigação de salvaguardar o meu cliente de tudo o que lhe possa prejudicar, protegendo-o de todas as ameaças externas e internas – às vezes as ameaças internas, são o próprio cliente!

Não pense que este tipo de relação se constrói com facilidade; exige muita energia despendida ― de ambos os lados ― para derrubar os muros da desconfiança e da insegurança. Se o seu cliente, director, amigo sobreviver ao primeiro não, isso é sinal de que a relação poderá frutificar. E o mesmo consigo, se for capaz de sobreviver ao primeiro não, verá como a solução / proposta / resposta seguinte será muito mais valorosa! Para que o seu não não seja discricionário necessitará de estabelecer para si quais os limites e que linhas vermelhas se recusa ultrapassar ou ver ultrapassada.