Filhos. Devem os freelancers assumir dificuldades financeiras?

Encaremos de frente a realidade: uma boa parte dos pais, se não a maioria, não fala de assuntos relativos ao dinheiro com os filhos. E as crianças, até uma certa idade, pouco entenderão sobre o respectivo valor, de onde vem, para que serve ou onde está guardado.

Dizem os especialistas que devemos ir falando com as crianças sobre finanças e dinheiro, à medida que vão crescendo. Mas essa recomendação, em geral, não é posta em prática. É uma falha que temos de assumir e passar a dar real valor a este tema tão importante que, em boa medida, domina uma parte significativa da vida, das ambições e preocupações de todos. Será que achamos que a “vida” se irá encarregar de ensinar os nossos filhos a gerir o seu dinheiro? Será da Escola essa obrigação? Será que é lícito pensar que eles aprenderão com os próprios erros? Estas são perguntas importantes, mas não o cerne do que quero dizer.

Quem trabalha como freelancer sabe bem que a máxima «ganhos passados não garantem ganhos futuros» se lhe aplica bem. Isto é, o fluxo de trabalho e a consequente estabilidade financeira são duas das maiores preocupações e dificuldades. Se, por momentos, podemos estar assoberbados de trabalho ou com a agenda preenchida de contactos com clientes, noutros momentos tal não acontece. Se a isto aliarmos o atraso dos pagamentos de alguns clientes, temos a receita ideal para enfrentar dificuldades financeiras.

Essas dificuldades, por vezes, até nem são propriamente da responsabilidade do freelancer que vive acima das suas possibilidades (expressão tão comummente usada, em especial durante a crise económica e financeira que afectou o nosso país, a partir de 2011). Por vezes, as dificuldades financeiras prendem-se com complicações de tesouraria, consequência de atrasos no recebimento do valor dos projectos ou de condições de pagamento de honorários pouco favoráveis ao profissional (é conhecida a prática de muitas empresas pagarem somente a 30 e às vezes a 60 dias). Ou pior, o cancelamento abrupto de um trabalho, que já estava agendado, que seria garante dos rendimentos necessários.

A desfavor do freelancer estão ainda as obrigações fixas, tais como as suas despesas pessoais, as relacionadas com a manutenção do seu negócio ou actividade empresarial e o cumprimento dos deveres fiscais. Ainda que o regime da Segurança Social tenha sido alterado, para reflectir as oscilações financeiras do freelancer, cumprir essa obrigação, mesmo assim, pode ser um desafio desmesurado.

Tal como referi, a oscilação de trabalho é um verdadeiro drama. Se o trabalho pára, o mesmo não acontece com o resto da vida: é necessário continuar a comprar pão de todos os dias e garantir os demais aspectos de conforto familiar básico, especialmente o dos filhos.

É este o ponto central: se passamos dificuldades financeiras porque estamos sem trabalho ou o trabalho que temos não chega para garantir o pagamento de todas as despesas, devemos ou não envolver os filhos, isto é, dizer-lhes, abertamente, que, naquele momento, o pai ou mãe estão com dificuldades financeiras e que isso irá afectar o modo de vida da família? Devem os pais poupar os filhos e tentar esconder a situação? De que forma os pais devem abordar o problema? E, nos dias que de avizinham, perante esta enorme crise provocada pela pandemia do Coronavírus e as suas consequências para a economia, como preparar os filhos para os tempos de dificuldade?

Quando se trata de dificuldades financeiras, muitos pais não sabem exactamente como proceder. Eu próprio não tenho uma resposta concreta para as questões que coloquei acima. E, por isso, o que vou partilhar é aquilo que desejo e espero conseguir fazer se e quando a crise me bater à porta.

Explicar às crianças o valor do dinheiro

Falar de dinheiro em família é importante. A consciência do dinheiro disponível e o modo como é gasto é imprescindível para um planeamento eficaz do orçamento familiar. E orçamento familiar inclui todos os membros do agregado, estando as crianças também envolvidas. É importante envolvê-las desde cedo, tendo sempre o cuidado de atender à idade e à compreensão sobre o assunto.

Pode começar por explicar que o dinheiro é fundamental para garantir que a família tenha o que precisa, como uma casa para viver, comida para se alimentar, roupa para vestir, e também, sempre que possível, brinquedos para se entreterem. E que, para se ter dinheiro, é preciso ganhá-lo, e para ganhar dinheiro é preciso trabalhar.

Se os filhos já forem mais crescidos, creio, tendo em conta o exemplo dos meus pais, que se pode ser mais aberto acerca de quanto se ganha para que eles se relacionem mais de perto com a realidade em que vivem. Pode não dizer um valor certo, mas pode dar valores de comparação, do género: «ganhamos o suficiente para um carro da marca X ou Y, ter uma casa com 3 ou 4 quartos ou para almoçarmos fora todos os fins-de-semana». Ou dar os exemplos de modo inverso: «há famílias que não podem almoçar fora todas as semanas ou ir de férias para o estrangeiro».

Envolver ou não as crianças perante uma crise ou uma dificuldade financeira da família?

Tal como afirmei acima, não tenho para mim uma reposta clara para o tema. Porém, podem-se considerar dois cenários, sendo que há um princípio comum em ambos: a transparência. Se a dificuldade é passageira e não exige uma alteração profunda da vida normal da família, então bastará dizer – sem dar grande importância – que naquele momento ou mês não é possível comprar nada além do essencial ou do que já está planeado. Podem ser momentos em que a família teve uma despesa extra ou inesperada – como obras em casa ou a reparação do carro – mas que rapidamente voltará ao estado normal das suas finanças.

No entanto, se a situação for mais grave e de maior duração, julgo que será benéfico para todos os membros da família saberem o que se passa e qual o plano a seguir. Parece-me que o melhor será dizer às crianças – independentemente da idade – que vão existir algumas mudanças na rotina da família porque, naquele momento, estão a enfrentar uma dificuldade económica. Dependendo da idade, não será necessário dizer tudo com detalhe. O importante será garantir que a situação não é da responsabilidade delas, que os pais tudo estão a fazer para a ultrapassar e, o mais importante, assegurar que não faltará o essencial, como alimentação, vestuário ou transporte para a Escola. Tudo o resto, como actividades extracurriculares ou desportivas, férias, brinquedos extra, sessões de cinema, etc., terá de ser suspenso de forma a ajudar a equilibrar os gastos; por outro lado, a família terá oportunidade de explorar outras formas de entretenimento, também agradáveis.

Já afirmei que, independentemente da gravidade, a abordagem do assunto deve ser transparente. Escondê-lo, seja com intenção de não preocupar os filhos, seja por vergonha ou medo da reacção, é apenas armazenar combustível que depois alimentará um fogo difícil de controlar e apagar.

Na minha opinião, a melhor forma de abordar o assunto é fazê-lo de forma directa, factual, honesta e sem ilusões. Se é necessário cancelar as férias, diga-o. Não alimente a ideia do contrário, sabendo que não será capaz de cumprir. O que é fundamental é deixar claro que os pais estão no controle e que é necessária a contribuição de todos. O importante é que os filhos não se sintam responsabilizados, mas que se sintam parte da solução.

Durante este período, todos os membros da família devem estar atentos ao ditado: «Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão». Quando a família passa por problemas financeiros, é natural que o nível de stress seja elevado pois todos se sentem sobrecarregados com a preocupação do dia seguinte: Haverá comida? Conseguirei pagar a prestação da casa? E se acontece alguma coisa e não há dinheiro? Enfim, podem ser muitos os pensamentos.

É, por isso, importante toda a família estar envolvida, evitando, assim, que se lancem culpa da situação uns sobre os outros.

Perante as dificuldades financeiras, o que fazer?

Aqui socorro-me de alguns dos conselhos do Gabinete de Apoio ao Sobre-endividado da DECO.

Em primeiro lugar, não se lamente nem entre em negação. Nem o espírito de Calimero nem o de Super-homem resolverão a situação. Quanto mais honesto for consigo, em especial sobre a sua situação financeira, melhores ferramentas terá para tomar decisões.

Depois, identifique o problema e conheça as suas gorduras orçamentais. Saber o que está a afectar negativamente as suas finanças é meio caminho andado para poder lidar com dificuldades financeiras.

Desta forma, deve avaliar todas as suas despesas e detectar se estão e onde estão a ocorrer excessos. É comum profissionais liberais aderirem ou subscreverem serviços que estão subaproveitados. Por exemplo, aquele programa de facturação caríssimo e super-potente pode ser substituído por outro mais barato. Pode dispensar o contabilista e aprender a fazer a sua contabilidade mais simples, como apurar o IVA ou entregar a declaração à Segurança Social. Pode também deixar de trabalhar na esplanada do Starbucks e passar a usar a sala de uma biblioteca.

Distinga as chamadas gorduras orçamentais das despesas que são realmente essenciais para manter o seu negócio.

Desenvolva um plano. Crie um orçamento mensal, com as despesas fixas e estritamente necessárias, que deve cumprir e continue a cortar noutras despesas, sempre que possível, desde que não prejudiquem o negócio. Por exemplo, passar a utilizar mais transportes públicos, renegociar os contratos de Internet ou evitar deslocar-se tantas vezes aos clientes.

Procure delinear estratégias para aumentar o seu rendimento disponível, tendo objectivos a curto, médio e longo prazo. Pense como poderá adaptar as suas skills de modo a ganhar dinheiro com outras actividades. Esteja atento a outras oportunidades de trabalho que, em condições normais, não equacionaria realizar. Veja ainda se não consegue rentabilizar algum stock de trabalho, como, por exemplo, fotografias que sobraram de outros trabalhos, código de aplicações que pode reutilizar nalgum projecto que possa gerar dinheiro, ilustrações que poderá vender ou estampar em t-shirts, etc.

E, por fim, peça ajuda. Não precisa de fazer tudo sozinho. O isolamento não é bom conselheiro. Utilize a sua rede de contactos para pedir referências de futuros clientes. Telefone a um cliente antigo – pode ser que ele precise de algo. Não tenha vergonha de «anunciar» que procura clientes e que todas as recomendações são bem-vindas – e para tal conte com os amigos e familiares.

A vida é cheia de imprevistos. Despesas imprevistas, desemprego, falta de trabalho ou problemas de saúde, podem obrigar-nos a lidar com dificuldades financeiras sérias. Não esconda a cabeça debaixo da areia. Gerir as finanças nem sempre é fácil, mas saber como resolver problemas financeiros, à medida que eles vão aparecendo, evita a acumulação e garante-lhe uma vida mais sossegada.