Estados d’alma de um freelancer.

Todos os anos revisito uma banda, um cantor ou um álbum que tiveram impacto na minha vida. Alguns são tão pirosos que os mantenho em privado. Mas voltar a escutar aquelas músicas levam-me a recordar momentos de vida, pessoas, lugares, aventuras, estados d’alma, alegrias e tristezas.

Uma das artistas que tocou em alta rotação no meu Spotify no primeiro terço deste ano foi a Alanis Morissette. Se não a conhece, a Alanis Morissette é uma cantora / compositora Pop-rock que teve o seu primeiro grande sucesso em 1995 com o lançamento do álbum Jagged Little Pill do qual os singles All I Really WantYou Oughta Know, Hand in My Pocket e Ironic foram os mais tocados na rádio na altura. Este álbum arrebatou praticamente todos os prémios de música desse ano.

Ao escutar de novo este álbum e outros da artista comecei a aperceber-me que havia uma série de frases e estrofes que representam bem os estados de alma de um freelancer. Vou usar um excerto de três músicas que escolhi para mostrar como a Alanis Morissette sabe, como ninguém, como se sente um freelancer!

Tenho plena consciência que estou a esticar de forma generosa o contexto das canções, às vezes a fazer uma tradução demasiado literal ou utilizar as metáforas a meu bel-prazer. Mas peço-lhe que me dê o devido desconto. Este é apenas um texto despretensioso e não um ensaio sobre a obra artística da cantora.

Hand on my Pocket

I’m broke but I’m happy,
I’m poor but I’m kind
I’m short but I’m healthy, yeah
I’m high but I’m grounded,
I’m sane but I’m overwhelmed
I’m lost but I’m hopeful, baby
What it all comes down to
Is that everything’s gonna be fine, fine, fine

Não é assim que tantas vezes nos sentimos: tesos, mas felizes. Sem segurança financeira, é verdade, mas com liberdade de escolha! Mal pagos pelo cliente, mas ainda assim gentis e submissos. Perdidos em tantas tarefas e obrigações, mas ainda espaçosos de que seremos capazes de cumprir. E mesmo quando o trabalho não abunda ou os clientes relevam-se mais difíceis de lidar, continuamos sempre a alimentar a expectativa de que no próximo trabalho tudo vai ser melhor.
 

Reasons I drink

These are the reasons I drink
The reasons I tell everybody I’m fine even though I am not
These are the reasons I overdo it
I have been working since I can remember, since I was single digits
 
Trabalhar por conta própria é ter tantas razões para sentir-se frustrados; às vezes até sente que tem mesmo de afogar as mágoas! Parece que tudo está contra: os projectos não correm bem, os clientes embirram, sentimos um desalento ao olhar para a percentagem de impostos que fazem diminuir – e muito – o valor final da factura, vivemos sempre na incerteza do amanhã, etc… no entanto, continuamos a afirmar que tudo está bem e até somos exageramos no nosso optimismo. Dizemos que tudo vai bem pois queremos manter a farsa de que a vida de freelancer é uma maravilha e tudo é cor-de-rosa, tardes nas esplandadas, óptimos projectos e muito tempo livre! E exageramos também na dedicação a maus projectos, aqueles mal pagos e sem sentido, mas para os quais continuamos a dispensar um número exagerado de horas e esforço, porque gostamos de fazer com brio e empenho o trabalho que nos encomendaram. E julgamos que como andar da carreira tudo será mais fácil, pois seremos mais respeitados e teremos maior reputação. Mas tal nem sempre acontece e parece que não saímos da cepa torta!
 

Smiling

This is a life of extremes
Both sides are slippery and enticing
These are my places off the rails
 
And this, my loose recollection of a falling
I barely remember who I failed
I was just trying to keep it together


And I keep on smiling
Keep on moving
Can’t stand still
 
Sim, esta pode ser uma vida de extremos. Ora tudo corre muito bem, ora é o contrário. Ora temos muito trabalho, ora passamos por períodos em que a nossa agenda parece um deserto. Ora os clientes nos amam (e nós a eles!), ora nos odeiam (e nós a eles!).

O segredo para sermos bem-sucedidos é evitarmos os extremos. Temos de saber de antemão que nem todos os nossos projectos serão de enorme sucesso e visibilidade. Mas que nem tudo o que produzimos é propriamente lixo. Há que encontrar um equilíbrio.

Não importa a fase em que estejamos, boa ou má, os olhos têm de estar no futuro, no próximo projecto, no próximo cliente. Não podemos a viver das glórias do passado, nem paralisados a chorar o presente. Os nossos olhos têm de estar postos no dia de amanhã, no que podemos fazer melhor, no que nos falta fazer, no tanto que ainda há para fazer e no que desejamos fazer. Um freelancer é um “fazedor”. É a fazer coisas que ele se sente realizado.