Desculpas que inventamos para não fazer o trabalho

Quantas vezes inventamos desculpas para adiarmos um trabalho? Não falo de procrastinação. Bom, se calhar este tipo de desculpas também se podem definir como procrastinação.

Falo daquelas desculpas que começam com «se tivesse…», do género:

  • se tivesse um computador melhor então poderia realizar esta ideia
  • se tivesse a máquina fotográfica X ou Z então poderia tirar uma foto com mais cor
  • se tivesse a última versão daquele software então poderia usar mais efeitos
  • se tivesse mais um tablet ou um smartphone de última geração então poderia organizar melhor o meu trabalho.

Como pode ver, habitualmente estas frases terminam com «então poderia…»

E enquanto formulamos estas desculpas na nossa cabeça sob o pretexto de adiarmos o começo do trabalho, passamos horas na Internet a ver o computador ideal ou a máquina fotográfica perfeita que desejaríamos ter para realizar as tarefas que temos em mãos. E assim se passa o tempo, numa espécie de loop entre o não começar porque achamos que não temos o equipamento certo e o estarmos sempre nessa permanente busca da última novidade para fazermos o nosso trabalho.

É fácil inventar desculpas para não fazermos o trabalho. É comum achar que é o equipamento X ou Y que faz a qualidade de um trabalho. Eu afirmo o contrário: que é a motivação e a criatividade que faz o trabalho, ou seja, somos nós! As máquinas e o software são ferramentas; a nós cabe-nos saber usá-las e explora-las o melhor que sabemos, às vezes para lá do limite.

Não estou a afirmar que não devemos ambicionar por equipamento mais moderno ou actualizado; isso é importante, pois além de ganhos de produtividade ajuda a aceder a outros recursos que criarão maior ambição na criatividade.

São tantos os exemplos de artistas que não permitiram que a limitação tecnológica os impedisse de criarem autenticas obras de arte ainda hoje elogiadas pela crítica. Desde a fotografia, o cinema, a moda, a arquitectura, a engenharia, o design ou a música, os exemplos multiplicam-se. Se for um geek da música como eu, ficará deslumbrado com um breve documentário realizado a propósito dos 40 anos de Bohemian Rhapsody, uma das mais icónicas músicas dos Queen.

Neste documentário, Brian May, explica como foi o processo de gravação desta música, mostrando uma das fitas originais onde estão registadas cada uma das pistas que dão corpo à música. Bom, cada uma das pistas não! Pois à época só existiam gravadores com 24 pistas e algumas secções da música exigiram até 180 overdubs separados (overdub é uma técnica que consiste em adicionar novos sons a uma gravação já anteriormente realizada. Desta maneira, a gravação da voz de um cantor, por exemplo, pode ser multiplicada de forma a parecer a gravação de mais de uma pessoa).

É este o meu ponto: mesmo com a limitação tecnológica da época, que passava pelo limite de pistas, a distorção harmónica provocada pelos consecutivos overdubs, o tempo e o esforço humano para misturar secções da música em tempo real, a limitação do equipamento, ainda assim, Freddy Mercury e toda a banda e técnicos não disseram «vamos adiar até ao dia em que tenhamos todo o equipamento e software disponível para gravar em condições esta música!»

Não, durante 3 semanas ― o tempo que levou para gravar a música ― eles desdobraram-se em esforços e criatividade e a obra nasceu! E são tantos, mas tantos, os exemplos de obras artísticas e de engenharia onde o sucesso chave foi a criatividade e engenho e não as ferramentas.

Então, da próxima vez que começar com desculpas da treta a dizer que não vai realizar uma ideia porque não tem o equipamento necessário, inspire-se na história dos Queen e ponha mãos à obra!